A consciência não é uma iluminação súbita, mas algo semelhante a um trabalho têxtil: não nasce pronta, não se apresenta inteira. Exige entrelaçar afetos, memórias, perdas, desejos, silêncios e restos do cotidiano, até que algo, ainda imperfeito, adquire forma. Como um tear antigo, a consciência trabalha lentamente, produzindo uma superfície visível sustentada por fios invisíveis.
Há vidas que se tornam tão tomadas pela função que deixam de ser habitadas por dentro. Acordar antes da alvorada. Sustentar responsabilidades sucessivas. Cuidar dos outros. Escutar dores alheias. Produzir respostas rápidas para urgências que nunca cessam. Retornar para casa já à noite. Repetir.
Em algum momento, aprende-se a sobreviver adiando a si mesmo. As lágrimas passam a existir apenas nas brechas – tarde da noite, no silêncio do quarto, quando finalmente já não é necessário funcionar. Não surgem necessariamente como drama. Às vezes aparecem apenas como excesso acumulado. O corpo chora aquilo que a vida objetiva não permitiu nomear.
O sofrimento psíquico contemporâneo nem sempre surge da falta de tarefas, no vazio das horas inúteis, mas justamente do excesso delas. O sujeito se torna eficiente em sobreviver, mas estrangeiro de si. A dor adiada pelo horário do relógio é percebida quando se retorna do mundo, em direção ao espaço doméstico no qual se permite ser si mesmo. Ela retorna nos sonhos, no cansaço sem nome, na sensação de exílio subjetivo, na vontade inexplicável de interromper, ainda que por alguns instantes, a maquinaria cotidiana. Retorna na pergunta silenciosa: “quem escolheu a vida que estou vivendo?”
Talvez consciência seja justamente isso: o momento em que alguém percebe que pode escolher alguns móveis da própria alma antes de continuar carregando a casa inteira nas costas.
Nem tudo que herdamos precisa permanecer intacto. Nem toda bagagem é destino. E talvez amadurecer não seja endurecer completamente, mas recuperar a possibilidade de existir sem pedir desculpas por desejar.

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