,

Sobre certos risos

Existem risos que acolhem. Risadas que tornam os ambientes mais leves, que aproximam pessoas, que dissolvem tensões e recordam que a vida não precisa ser carregada o tempo inteiro com excessiva gravidade. Mas existem também outros tipos de riso… Não necessariamente cruéis, não necessariamente mal-intencionados. Ainda assim, difíceis de habitar.

Talvez você saiba do que estou falando.

Você está em uma reunião, em uma confraternização, ou em um grupo de trabalho, e, de repente, alguém ocupa todo o espaço: a voz torna-se mais alta, as histórias tornam-se maiores, as gargalhadas tornam-se mais frequentes, os gestos tornam-se mais expansivos. O ambiente parece gravitar em torno daquela presença. E algo em você se retrai.

Talvez não seja inveja, talvez não seja antipatia. Talvez seja apenas uma sensação antiga… A sensação de que algumas formas de existência ocupam naturalmente o centro da cena, enquanto outras permanecem observando das margens.

Você tenta participar, sorri educadamente, assente, acompanha a conversa. Mas uma pergunta silenciosa começa a surgir: “será que há espaço para pessoas como eu aqui?” Porque algumas sensibilidades não se sentem ameaçadas pelo conflito, sentem-se ameaçadas pelo excesso. Pelo excesso de ruído, pelo excesso de ocupação, pelo excesso de presença.

Há pessoas que aprenderam a escutar antes de falar. A observar antes de concluir. A refletir antes de reagir. A habitar o silêncio sem desconforto. E, para elas, determinados ambientes podem produzir uma estranha sensação de desaparecimento. Como se a própria subjetividade precisasse recuar para que outras formas de presença ocupassem todo o espaço disponível.

Talvez seja por isso que certos risos pareçam agressivos.

Não porque sejam agressões, mas porque, às vezes, carregam uma mensagem implícita. A mensagem de que o mundo pertence aos expansivos, aos rápidos, aos carismáticos, aos que dominam a arte da visibilidade. E quem observa isso durante muito tempo pode começar a acreditar que existe algo inadequado em sua própria maneira de existir. Como se profundidade fosse timidez; como se discrição fosse fraqueza; como se contemplação fosse ausência.

Mas talvez exista outra possibilidade: talvez o desconforto não esteja revelando uma falha, talvez esteja revelando uma diferença: nem toda presença precisa ser sonora; nem toda inteligência precisa ser exibida; nem toda alegria precisa ser performada; nem toda profundidade precisa ser anunciada.

Existem pessoas cuja forma de existir se assemelha mais a uma conversa do que a um espetáculo. Mais a uma biblioteca do que a um palco. Mais a uma vela do que a um holofote. E elas possuem tanto direito ao mundo quanto aqueles que entram rindo em uma sala e imediatamente atraem todos os olhares.

Talvez a tarefa não seja aprender a rir mais alto, nem transformar-se em alguém que você não é. Talvez seja apenas compreender que a sensibilidade que o faz sentir-se deslocado em certos ambientes é a mesma que lhe permite perceber nuances, construir intimidade, escutar profundamente e enxergar aquilo que frequentemente passa despercebido.

Porque algumas pessoas iluminam uma sala quando entram.

Outras iluminam uma vida quando permanecem.

E o mundo precisa das duas.

One response to “Sobre certos risos”

  1. Avatar de Luiz Antônio Arantes
    Luiz Antônio Arantes

    Belíssima explanação!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *